quinta-feira, 20 de abril de 2017

Mar me quer - Mia Couto


Mar me quer é um conto, um conto especial, cheio da magia indolente dos ritmos africanos de viver. Mia Couto não escreve, ele entrega-nos uma história através da melodia. É doce a sua escrita, é como uma brisa suave no nosso rosto quente. 

É cheio de nostalgia sem choro. Cheio de emoções que já não se exaltam. Calmas, é um conto que nos acalma e nos leva assim de mansinho.

Não custa ler, é como se Mia Couto estivesse a falar connosco. A sua escrita não revela qualquer esforço de composição frásica. É simples, simples. São usadas expressões que não existem no português escrito de Portugal, mas que me fizeram fechar os olhos de tão lindas e tão certeiramente aplicadas, retiram a carga negativa e carregam-na da aceitação de vida, tal como ela é.

Aqui ficam exemplos:

Já se antigamentara = já morrera
Minhas visitas são para lhe caçar um descuido na existência = apanhá-la desprevenida
Esse serviço de confeitar vestes = ser costureira

É mágico, Mar me quer....

Sinopse
(retirei da Wook)
Plano Nacional de Leitura
Livro recomendado para o 8º ano de escolaridade, destinado a leitura orientada.

Um dia o padre Nunes me falou de Luarmina, seus brumosos passados. O pai era um grego, um desses pescadores que arrumou rede em costas de Moçambique, do lado de lá da baía de S. Vicente. Já se antigamentara há muito. A mãe morreu pouco tempo depois. Dizem que de desgosto. Não devido da viuvez, mas por causa da beleza da filha. Ao que parece, Luarmina endoidava os homens graúdos que abutreavam em redor da casa. A senhora maldizia a perfeição de sua filha. Diz-se que, enlouquecida, certa noite intentou de golpear o rosto de Luarmina. Só para a esfeiar e, assim, afastar os candidatos. 

Depois da morte da mãe, enviaram Luarmina para o lado de cá, para ela se amoldar na Missão, entregue a reza e crucifixo. Havia que arrumar a moça por fora, engomála por dentro. E foi assim que ela se dedicou a linhas, agulhas e dedais. Até se transferir para sua atual moradia, nos arredores de minha existência.

Sem comentários:

Enviar um comentário