quinta-feira, 30 de março de 2017

O Duplo - Fiódor Dostoiévski

Este livro tem tanto de inquietante quanto de divertido.

Talvez não seja o mais habitual associar as obras de Dostoiévski a divertimento, mas confesso-te achei-a divertida e para isto contribuiu, decisivamente, a forma com a história é construída e os diálogos que a compõem.

O livro trata da angústia de um homem perante a existência de um colega que lhe rouba a identidade, sendo em tudo a si semelhante. Goliádkin, a personagem à volta da qual toda a história gira, vê-se anulado pela existência de um seu sósia, que ocupará, em todas as áreas, a sua vida e o seu lugar.

A angústia de Goliádkin, a sua histeria e desespero são tornados reais de tão bem retratados pelo autor. O nosso herói, como é referido durante toda a obra, vê-se a braços com uma situação impossível, é como se fosse desaparecendo, sugado pelo seu "rival". Não obstante a sua revolta, Goliádkin não consegue ignorar e seguir em frente, martiriza-se e "rumina" o assunto à exaustão, procurando insistentemente perceber a situação e revertê-la , ficando, cada vez mais, numa situação desconfortável e periclitante.

É uma obra que critica claramente a ditadura de uma sociedade que não valoriza o individual, que usurpa a liberdade de cada um, das suas particularidades próprias, sugerindo que pela sua opressão os indivíduos são levados à insanidade porque se vêm destituídos da sua essência pessoal.

Mas mais, a incoerência dos desejos do nosso herói (tanto despreza os elementos da sociedade como os procura cativar e ser por eles reconhecido, tanto se revolta com o duplo, como o admira pelas suas capacidades e o inveja e o abriga em sua casa) transmite-nos a luta interior do indivíduo que mesmo não querendo ser como eles são, por os achar detestáveis, não consegue libertar-se do desejo de pertencer ao grupo e procura, incansavelmente, ser amado e incluído.

Não é um livro fácil de ler, a narrativa está longe da escrita atual e é marcada por um encadeamento que nos procura transmitir inquietação, ansiedade e angústia e uma dose muito forte de crítica sociológica.

Muito bom.  

Sinopse
(retirei da Wook)
Dostoiévski publicou O Duplo em 1846, quando contava apenas 24 anos, poucos meses depois da publicação do seu primeiro romance Gente Pobre. Muitas das suas inquietações estão já presentes nesta história de um funcionário público obcecado pela existência de um colega, réplica de si próprio, que lhe usurpa a identidade, acabando por levá-lo à insanidade mental e à ruptura com a sociedade. A afirmação da liberdade individual contra instituições e normas existentes é precisamente o tema chave deste romance, ainda que sobressaia a compaixão pela condição dos humilhados, outra recorrência na obra do autor. Este romance é um caso de ruptura com convenções literárias, intensamente criativo, com uma riqueza a nível dos recursos estilísticos, que Nabokov comparou aos de James Joyce.

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