terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

Hoje trago-te uma história.

"Na província de Bihar, na Índia, vivia um viúvo chamado Kuma com o seu muito querido filho Samu. Quando a irmã de Kumar contraiu uma doença infeciosa rara, este decidiu visitá-la. Havia um certo perigo de contágio e, por isso, Kumar deixou Samu, com onze anos, sozinho, pois ele sabia fazer tudo em casa.

Na ausência de Kumar, contudo, uns bandidos entraram na habitação e roubaram tudo o que lá existia de valor. Não se contentando com isso, para não deixarem vestígios, decidiram raptar Samu e incendiar a casa.

O regresso de Kumar não podia ter sido mais doloroso. Quando chegou e viu a casa queimada, o terror apoderou-se dele e correu em busca de sinais do filho. Num canto, encontrou uns ossos queimados e deduziu que seriam do pequeno Samu. Com o coração despedaçado, pegou delicadamente nos ossos e nas cinzas por baixo deles e colocou-os num saco de veludo.

Alguns meses depois, o pequeno Samu conseguiu escapar dos bandidos e viajar de volta à sua aldeia. Uma vez chegado, procurou a nova casa do pai e bateu insistentemente à porta.

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- Quem é? - perguntou o pai sem vontade de ver ninguém.
- Sou eu, o Samu, abra - respondeu o menino.

Kumar estava muito deprimido e só teve forças para pegar no saco onde se encontravam os restos do filho e dizer:

- Tu não és o meu filho. Tenho-o nos meus braços neste preciso momento.
- Que está o pai a dizer? Enlouqueceu? Sou Samu, o seu filho - disse o rapaz, começando a pensar que talvez se tratasse de outro homem e não de Kumar.
- Vai-te embora, bandido. Se abrir a porta, será para de matar. Não nos aborreças mais, a mim e ao meu pobre filho! - gritou o pai.

Por fim, Samu deu-se por vencido e abandonou a aldeia convencido de eu nunca ali seria bem recebido. Kumar, por seu lado, continuou abraçado ao seu saco de ossos até ao dia da sua morte."

Esta história tradicional oriental mostra como, por vezes, nos agarramos a ideias falsas que nos tornam invariavelmente infelizes. Se nos atrevêssemos a explorar outras possibilidades, a perceção de muitos dos nossos medos ou de ameaças inventadas mudaria por completo.
In A arte de não amargar a vida de Rafael Santandreu



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