quinta-feira, 8 de setembro de 2016

Um novo amanhã - Dorothy Koomson

Não há palavras para descrever o quanto gostei deste livro. Não é pela história, não é pelo enredo, mas pela admiração com que fiquei pela autora.

Dorothy é, simplesmente, genial. Mais madura em cada livro que escreve, Dorothy consegue aliar duas coisas que eu pensava inconciliáveis, o retrato da realidade atual, dos problemas sociais com que nos deparamos, e a melodia e fantasia de uma escrita de fada.
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Trata-se de uma história de duas meninas, com o mesmo nome, que se encontram na mesma escola e nas mesmas aulas de ballet, quando têm 8 anos. É a história de duas raparigas que perante a mesma realidade reagem de diferentes maneiras. É a história de duas mulheres que com percursos distintos se encontram no mesmo ponto de agonia e de recordações.

Dorothy escreve-nos, como de costume, na primeira pessoa, conferindo à sua narrativa um tom muito íntimo. Faz-nos saltar através do tempo, ora para o passado, ora para o presente, enredando-nos com pormenores e acontecimentos como peças de um puzzle que vamos montando aos poucos.

Os temas sociais são abordados com muita simplicidade, sem se tornarem densos nem enfadonhos, mas com uma enorme profundidade. É um retrato real de emoções e de perspectivas pouco usuais.

Ao contrário dos outros livros que li desta autora, o elemento racial não é tão presente. Na entrevista que deu à Fernanda, este ano na Feira do Livro de Lisboa (lê aqui), Dorothy referiu que uma das suas personagens principais seria sempre uma mulher negra, que isso era uma das características dos seus livros, no entanto, ao contrário do que sucede nos outros livros em que a raça é apontada diretamente, neste livro é-nos apenas sugerida. Gostei tanto da forma como nos apresenta as raças das suas personagens com descrições de pequenos pormenores, como o tom da pele ou o penteado.
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O livro é repleto de passagens quase poéticas. A melodia que Dorothy atingiu na sua narrativa é surpreendente.

Deixo-vos três citações, exemplos de como esta autora atingiu um nível de excelência pouco visto.

"Era isso que mais me confundia quando era considerada uma "sem-abrigo". É como se isso significasse apenas que não tem um teto por cima da cabeça. E se, na realidade, o que nos falta forem todas as outras coisas que compõem um lar: amor, aceitação, atenção e carinho. Um sentimento de pertença. Não seremos também "sem-abrigo".

"Parece autêntico. Ao longo dos anos vi muitas facetas das pessoas. Revelam-se de tantas maneiras diferentes, aparentemente insignificantes, e, na maioria das vezes, nem sequer se dão conta de que estão a fazê-lo. Estacionam em segunda fila? Cospem para o chão? Interrompem os outros? Agradecem a quem lhes dá boleia? Tudo pequenos indicadores da alma de uma pessoa".

"Estou serena, há dedos de silêncio a alisar as orlas da minha ansiedade".

Dorothy Koomson é uma escritora de elite que tem vindo a amadurecer e a melhorar. Este livro é magnífico. Merece ser lido!


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