terça-feira, 13 de outubro de 2015

Um tesouro que encontrei!



Quem me acompanha sabe que um dos meus passeios preferidos é uma ida à biblioteca municipal com a filhota. Tenho encontrado tantos tesouros que sempre que vejo aquele edifício o meu coração fica logo doce.


Este sábado encontrei esta preciosidade. Gostei tanto e tocou-me tão profundamente que, hoje, venho partilhar convosco.

Não transcrevo o livro todo, apenas umas partes para poderem compreender o sentido da história. Tão, tão lindo. As ilustrações também são absolutamente fantásticas. Um verdadeiro tesouro para adultos num baú destinado a crianças.

Aqui fica, o excerto de Eu, Ming.


Eu poderia ter nascido no Reino de Inglaterra, ter bonitos chapéus, e deixar-me conduzir numa carruagem puxada por dezoito cavalos. Saudaria a multidão com um pequeno gesto da minha mão e sorriria sem razão, pensando na tarte de maçãs que me iriam servir para o chá.

Poderia também ter nascido Crocodilo e crescido na margem do Nilfertiti. Teria devorado todos os turistas barrigudos com os seus calções curtos e chapéus, mais as suas máquinas fotográficas, mal eles pousassem um dedo do pé nas margens da minha instância turística.

Melhor ainda! Poderia ter sido um Emir Rico! Teria dado a volta ao mundo em Rolls-Royce num dos sentidos e em bicicleta banhada a ouro no outro. No resto do tempo, teria contado o meu tesouro na erva do meu magnífico jardim mesmo no meio do deserto.

Poderia ter sido também uma Horrível Velha Feiticeira. teria transformado todas as princesas em mosquitos com a minha vassoura maléfica. E, troçando delas, metê-las-ia no meu celeiro cheio de aranhas.

E continua... até que:

Mas eu sou Ming. Mais ninguém. Vivo no centro da China, nas margens do rio Koukonor. Todos os dias ponho o meu chapéu de bambu entrelaçado e umas calças bem largas. Todos os dias, antes do sol nascer, parto com a minha Nam para a aldeia.

Ela pega com a sua mão pequenina na minha mão e saltita todo o caminho fazendo baloiçar as suas tranças. Caminhamos os dois sem nos apressarmos muito. 

E continua...

Todas as tardes, Nam e eu, subimos o caminho que nos leva a casa. Ela conta-me o seu dia. E canta. E salta ao pé coxinho. Seu riso ziguezagueia na noite que caí suavemente.

É assim a nossa vida. Todos os dias. Mudam apenas a cor dos arrozais e o perfume das caixas de chá.

Esta manhã, quando íamos a caminho da escola, encontrámos um sapo quase azul! Eu também poderia ter sido um Sapo quase Azul! E pensei nas Rainhas de Inglaterra, nos Crocodilos, nos Emires Ricos, nas Feiticeiras, nos Touros, nos Generais, nos Imperadores do Mundo e nos Sapos quase Azuis.

Neste momento eles devem estar a dizer para si próprios: "Ah! Se eu tivesse podido nascer Ming! Seguraria a mãozinha de Nam bem fechada na minha e seria o avô mais feliz do mundo!"

Enquanto Nam dormia, peguei no seu caderno de escola. Escrevi no fundo, na última página, discretamente: P.S. (Pequeno Segredo): Nam, meu anjo, amo-te muito. E assinei com letras muito pequenas: eu, Ming.

O segredo, o grande tesouro está dentro de nós!

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